Esmoriztur: centralidade cultural ou atraso existencial?

Em 14 de março de 2015 foi (novamente) adjudicada a requalificação do Esmoriztur, por um valor próximo dos 2,7 milhões de Euros e com prazo de conclusão de 420 dias!

Quatrocentos e vinte dias. (agora vamos fazer uma pausa para respirar e deixar assentar este prazo: 420 dias, isso: quatrocentos e vinte dias)

Desde 2012 (coincidência abordada mais abaixo), a requalificação do Esmoriztur tem sido um trunfo eleitoral para os sucessivos executivos eleitos, após a saída do Partido Socialista da CMO. Curiosamente, o mesmo Partido Socialista que, antes de perder essas eleições, deixou em cima da mesa plano de requalificação e financiamento aprovado para a mesma, com tudo pronto para arrancsar (e concluir) a obra. Mas não… já lá voltamos!

O Esmoriztur não é apenas um edifício. É um espelho incómodo. E como todos os espelhos incómodos, há quem prefira virá-lo para a parede.

Houve um tempo (e convém dizê-lo sem nostalgia barata) em que aquele espaço respirava. Nos anos 90, o cineteatro Esmoriztur era mais do que cimento e cadeiras: era gente, era movimento, era cultura a acontecer numa terra que, demasiadas vezes, é tratada como periferia descartável. Depois veio o silêncio. Não o silêncio artístico, mas o outro: o do abandono, da degradação, da indiferença institucional. O edifício foi-se desfazendo devagar, como tudo o que não dá votos imediatos.

E quando parecia que, finalmente, havia um caminho, porque havia, efetivamente, um caminho, decidiu-se voltar ao ponto zero. Em 2012, com projeto em cima da mesa, com condições para avançar, com o essencial alinhado, entra uma nova liderança camarária sob a bandeira do PSD… e o que faz? Rebobina. Reavalia. Reconsidera. Traduzindo: trava. O que podia ter sido continuidade virou interrupção. O que podia ter sido obra virou estudo. E o que podia ter sido futuro virou mais uma promessa.

A partir daí, o Esmoriztur entrou num limbo que já conhecemos demasiado bem: concursos, pareceres, revisões, cadernos de encargos, erros técnicos, correções, novos concursos. Um carrossel administrativo onde todos parecem ocupados, mas nada acontece. A máquina funciona, mas anda em círculos e  a morder o próprio rabo. 

Quando, anos depois, a obra finalmente arranca, isso acontece como tudo o que nasce tarde: mal. Empreiteiros que abandonam, contratos rescindidos, prazos que escorregam sem vergonha, custos que incham sem explicação convincente. A conclusão apontada para 2019 transformou-se num horizonte elástico, sempre adiado, sempre “para breve”, sempre prometido a cada quatro anos (oh coincidência das coincidências!) E o edifício? Continua ali. Meio aberto, meio fechado, meio promessa, meio ruína.

Entretanto, o discurso político nunca falha. Nunca falha. Fala-se de “polo cultural de excelência”, de “referência regional”, de “dinamização”. As palavras são sempre grandes, redondas, ambiciosas. O problema é que não têm correspondência física. São arquitetura verbal para esconder a ausência de obra real.

E é aqui que o caso deixa de ser apenas sobre um teatro. 

O Esmoriztur transformou-se num manual de más práticas: como pegar num projeto viável, interrompê-lo por opção política, arrastá-lo durante mais de uma década e, no fim, apresentá-lo como conquista, mesmo nunca a concretizando. Um exemplo exímio de como transformar tempo perdido em narrativa de esforço. Com a distinta lata e altivez de pedir aplausos por aquilo que já devia estar concluído há anos.

Há mais de 365 dias, ou seja, há mais de um ano (curiosamente em vésperas de eleições autárquicas!),  voltou-se a falar em recomeço. Nova adjudicação, novo prazo, nova esperança. “Agora é que é”, disseram. Disseram sempre. E talvez fosse. Ou talvez não. Porque o problema nunca foi apenas técnico. Foi e continua a ser político.

O Esmoriztur não caiu por falta de ideias. Caiu por excesso de hesitação, de vaidade e de decisões que preferiram marcar território em vez de dar continuidade. Em 2012, podia ter começado a resolver-se. Escolheu-se, em vez disso, complicar.

E é por isso que, mais do que um edifício por acabar, aquilo que ali está é uma pergunta em cimento armado: quantos anos mais são precisos para concluir algo que já esteve pronto para começar?

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