Ainda não é data de Black Friday e já desde o início do mês somos bombardeados com anúncios de promoções extraordinárias, “black weeks”, “black months”, “black weekends”, enfim… tudo black!
Até parece um treino da seleção neozelandesa de rugby!
A desvirtuação deste dia mundialmente famoso, em Portugal, tem vindo a tomar proporções exageradas!
Daqui a nada temos um “black year” e promoções todo o ano, daquelas que fazem os hipermercados, com produtos sempre em promoção!

Claro que a Black Friday sempre foi uma época de grande excitação para os consumidores em todo o mundo. No entanto, a sua evolução em Portugal, ao longo dos anos, tem revelado preocupações sobre a integridade das ofertas e a ética por trás das estratégias de vendas. O frenesi das vendas, descontos aparentemente tentadores e a procura por ofertas irrefutáveis têm desviado a essência original deste evento comercial.

A essência inicial da Black Friday era oferecer descontos genuínos, que permitiam às pessoas adquirir produtos desejados por preços mais acessíveis e, por outro lado, permitiam aos vendedores um escoamento rápido de stock parado, originando liquidez para a sua renovação. Contudo, o cenário atual em Portugal, infelizmente, difere muitas vezes (demasiadas até, no meu entendimento) da proposta original. O advento do comércio online trouxe consigo a proliferação de práticas menos corretas (para não dizer enganosas e por vezes até mesmo fraudulentas).

Uma das principais preocupações reside na criação de descontos fictícios. Muitos retalhistas têm sido criticados por inflacionar os preços antes da Black Friday, apenas para depois reduzi-los e criar a ilusão de ofertas irresistíveis. Esta estratégia é desonesta e prejudicial para os consumidores, que acabam por acreditar que estão a fazer bons negócios quando, na realidade, estão a pagar o preço original ou até mais que o preço original por um produto.

Além disso, a corrida pelo aumento das vendas levou algumas empresas a sacrificarem a qualidade dos serviços e produtos. A pressão para oferecer descontos massivos pode resultar na redução dos custos de produção, o que origina bens de qualidade inferior e até mesmo a venda de produtos com defeitos, mas sempre a preços que sugerem uma grande vantagem para o consumidor.

O ambiente online tem sido um terreno fértil para a disseminação destas práticas questionáveis. As redes sociais, websites e plataformas de e-commerce têm sido palcos para a publicidade agressiva de ofertas exageradas e muitas vezes enganosas. A pressão para captar a atenção dos consumidores leva algumas empresas a recorrerem a estratégias manipulativas, exagerando nos descontos, criando falsas contagens regressivas ou inventando escassez artificial de produtos.

O impacto destas práticas vai além do mero engano aos consumidores. Estabelece um precedente prejudicial para o mercado, minando a confiança dos consumidores nas marcas e no próprio evento da Black Friday. A falta de transparência e honestidade nas estratégias de vendas resulta numa erosão da credibilidade das empresas, afetando a relação de confiança com os consumidores a longo prazo.

Então, como podemos resgatar a integridade da Black Friday? Acima de tudo, são fundamentais a implementação de regulamentações mais restritas e uma fiscalização eficaz por parte das autoridades competentes. A imposição de medidas que garantam a veracidade dos descontos, a proibição de práticas enganosas e a imposição de coimas dissuasoras para os infratores são fundamentais para reverter esta tendência abusiva e prejudicial.

Além disso, os consumidores têm um papel fundamental. É importante que estejam informados e atentos às estratégias de marketing manipulativas. Comparar preços, verificar históricos de preços dos produtos desejados e desconfiar de descontos exorbitantes são ações essenciais para evitar cair em armadilhas durante a Black Friday.

Finalmente, as empresas devem adotar uma postura ética e responsável – nem devia precisar de dizer isto, mas enfim… Em vez de se concentrarem apenas em maximizar lucros a curto prazo, devem dar prioridade à transparência, à qualidade dos produtos e a uma relação de confiança com os consumidores. A honestidade nas estratégias de vendas não só beneficia os consumidores, mas também contribui para a construção de uma reputação sólida e duradoura para as marcas.